Para se conhecer um pouco do acervo das casas dos barões do café recorremos aos inventários e testamentos, onde através dessa fonte, se infere os tantos padrões de assimetria do morar que coexistiam em áreas de produção cafeeira homogênea. Ali, em muitas casas de habitação, o mobiliário e as alfaias estavam longe da pompa e riqueza sugeridas pelas moradas do baronato do café. Em outras, porém, que primaram pela sofisticação do cotidiano, alguns vetores podem ser considerados como responsáveis pela mudança: o aumento da produção de café na localidade; a origem do proprietário, com vivência nos centros mais avançados; a chegada da estrada de ferro, facilitando o escoamento de riquezas e proporcionando maior circulação de idéias, com a introdução de novas práticas culturais.
Recorrentes nesses inventários são as peças de prata e trastes de madeira/móveis, longe contudo de figurar como acervo vultuoso no conjunto dos bens. Outra constante foi a menção aos jogos de palhinha, pressuposto da existência de uma sala de recepção. No mais, constavam com frequência, as cômodas, camas de armação, cadeiras, catres, armários, assim como " caixão de guardar roupa", marquesas de palhina, canastras e oratórios e a "mesa grande que servira para jantar". Quanto às pratas, não se apresentam como item de valiosos espólios. Incidem sobre salvas, copos, castiçais, espevitadeiras, sinetes, esporas, peças de menor porte e relativamente pouco valor. No item louças, cristais e vidros, raramente essas peças apareciam em conjuntos coesos, a exemplo dos que constam do acervo de dois fazendeiros expressivos de Queluz*: "aparelho de louça dourada para chá" de Manoel Novaes da Cruz, ou aquele de José Wenceslau de Souza Arantes, composto de aparelho de porcelana, um outro roxo, garrafas brancas, outro "aparelho de porcelana dourada para chá e café, seis compoteiras, redomas e mangas". Com ralação à tradicional louça azul, de importação frequente na época, sintomáticas do modo de vida burguês do Vale do Paraíba Fluminense no século XIX, nos inventários da banda paulista vinha dispersamente citada, mencionando-se com frequência "meio aparelho de louça azul", ou "incompleto" ou ainda "meio aparelho de xícaras " de louça chinês.
No caso da área de Queluz*, as idiossincrasias no morar confirmam a heterogeneidade do cotidiano daquela elite rural, que em alguma medida podem ser transpostas para boa parte do Vale do Paraíba paulista. Ali são muitos os contrastes que afloram no cortejo entre o montante do espólio do proprietário e seus bens relativos à casa da fazenda. Basta lembrar que o mais rico dentre os inventariados da área, José Luís Pereira, que herdara os bens de Manoel Novaes da Cruz, aumentando-os em 150%, vivia precariamente, isento de pertences que revelassem o mínimo apuro do cotidiano, conforme revela a relação de seus bens móveis, em inventário autuado em 1865:
582 oitavas de prata velha, um par de esporas de prata, um relógio parente de Rosker com corrente, uma bacia de arame usada, 5 arrobas de cobre velho, um taco pequeno, uma balança grande, uma cabeçada velha para tropa, uma mesa pequenina, uma marquesa francesa, três marequeses singelas, seis cadeiras de palhinha.
*Queluz: utiliza-se este termo pelo fato de Pinheiros ser freguesia de Queluz e formarem o mesmo distrito de paz vindo a separar-se posteriormente.
Fonte: livro - História do café/Martins, Ana Luiza - ed. Contexto/2008.